Texto
baseado no discurso de Azar Majedi feito numa conferência em Copenhaga
(Dinamarca) em comemoração do dia 8 de Março de 2003
O relativismo cultural é um conceito racista, escondido por trás dum
nome bonito, que justifica dois conjuntos de valores, de direitos e de
privilégios para o ser humano segundo um conceito arbitrário e
subjectivo como a cultura. Dito de forma mais directa, segundo este
conceito, devido ao local onde nasci eu devo desfrutar de menos
direitos do que uma mulher nascida na Suécia, na Inglaterra ou na
França. Eu sou obrigada a ficar contente com o meu estatuto de segunda
classe porque eu nasci num pais que está sob o domínio islâmico, e
devido ao governo misógino e reaccionário que se encontra no poder.
Isto vai mais longe e a segunda geração também se orna vítima desta
política racista. Também elas são vítimas de discriminação devido ao
sítio de nascimento dos seus pais.
Os defensores do relativismo cultural afirmaram-nos repetidamente que
temos que respeitar a nossa assim-chamada cultura, a nossa
assim-chamada religião, e aceitar respeitosamente e em silêncio o
destino que essas instituições determinaram para nós. É-nos dito que
toda a brutalidade, toda a depravação, e toda a opressão fazem parte da
nossa cultura - que nós nos devemos submeter à mais brutal forma de
misoginia,
apartheid sexual, às chicotadas e aos apedrejamentos, porque isso foi-nos ditado pela nossa cultural.
Eu pergunto-me sempre: o que é que eles [os relativistas culturais]
pensam de nós? Será que estas pessoas pensam que nós pertencemos a uma
nação de masoquistas? Será que eles pensa que nós gostamos de practicar a "nossa cultura"
não de livre vontade mas sendo sujeitas ao aprisionamento, tortura,
chicotadas, enforcamentos e apedrejamentos?
Se esta é a cultura das pessoas, que foi escolhida livremente e é
practicada voluntariamente, será que vocês já se perguntaram do porquê
existir uma sofisticada forma de opressão? Porque é que os estados
islâmicos são ditaduras brutais impostas sobre as pessoas? Porque é que
os grupos islâmicos recorrem ao terror com frequência - sendo até o seu
único método de terrorismo?
Vocês já se questionaram do porquê as mulheres estarem vazias de
direitos dentro das comunidades islâmicas? Porque é que elas são
mantidas na linha através da ameaça da faca, do ácido, dos espancamentos
e das matanças de honra? Aquelas que se atrevem a questionar esta regra
e questionar a assim-chamada cultural são punidas pelos "bravos" homens
da sua família. A maioria silenciosa sofre sozinha?
Estas são perguntas bastante simples mas válidas que têm que ser respondidas. Temos a obrigação moral de as responder.
O terror sempre foi a arma principal do islâo político.
[ed:
não existe "islão político" porque isso assume a existência do islão
não-político. Todo o islão - o islão ortodoxo - é um movimento político
mascarado de filosofia religiosa]. Esta força já cometeu crimes
incontáveis tanto nos sítios onde se encontra no poder - como a
República do Irão, os Mujahedin e os Talibãs no Afeganistão, no Sudão,
e na Arábia Saudita - como também nos sítios onde encontra na oposição
- como na Argélia, no Paquistão e no Egipto. Aterrorizar a população é
a política e a estratégia do islão político para obter o poder.
O 11 de Setembro e as suas consequências colocaram o islão político e o
terrorismo islâmico no centro da politica mundial. Na sua forma actual,
o islão político, como uma força poderosa dentro do
mainstream
dos conflitos políticos do Médio Oriente, é um produto do Ocidente.
Toda a gente sabe como é que Bin Laden e os Talibãs chegaram ao poder.
e obtiveram influência política. Isto é um facto tão comum como o
apedrejamento. Mas este terrorismo não se limitou àquela região; ela
veio fazer uma visita ao Ocidente também.
As mulheres são as vítimas principais do islão político e dos grupos terroristas islâmicos. O
apartheid
sexual, o apedrejamento, o véu islâmico obrigatório e a remoção de
todos os direitos das mulheres, são os frutos deste movimento
reaccionário. O islão político tem que ser relegado para o seu lugar -
para a margem das sociedades antes que ele tem vindo a destruir. O
islão político tem também que ser subjugado dentro das comunidades
islâmicas do Ocidente através da defesa dos princípios básicas da
liberdade, igualdade, do respeito pelos direitos das mulheres na sua
forma universal, pela defesa dos direitos das crianças e pelo
secularismo.
Voltando para o tópico da cultural, tenho que ressalvar que esta não é
a cultura das pessoas que vivem no Médio Oriente e nos assim-chamados
países muçulmanos; esta é, na verdade, a cultura e a política que está
a ser forçada às pessoas pelo Ocidente, liderado pelos EUA. A cultura
dominante em qualquer sociedade é a cultura do sistema dominante.
Mas imaginemos, por alguns instantes, que este pressuposto é verdadeiro
e que estas atrocidades fazem parte da cultura de certas pessoas. A
minha pergunta é: será isso razão suficiente para voltarmos as nossas
cabeças e ficarmos indiferentes ao que, para a nossa assim-chamada
cultura, parece ser brutal, discriminatório e sexista? Será que a
palavra "cultural" santifica qualquer forma de brutalidade, opressão,
violência e discriminação?
Porque é que o conceito de "cultural" é tão santificado que ensombra
qualquer sentido de justiça, emancipação, e direitos humanos? Estas
questões têm também que ser respondidas. Todas as pessoas decentes,
que amam a liberdade e com algum sentido de devoção à justiça e à
equidade e à liberdade, têm que encontrar as respostas certas.
O nosso governo tem defendido valores progressistas, libertários e
igualitários. Para nós, uma cultura que é opressora, que denigre as
mulheres, que propõe a desigualdade, a violência, a misoginia, e que
promove o
apartheid sexual não tem
qualquer tipo de santidade, não se encontra glorificada, e ela tem que
mudar. Esta á a nossa resposta, e esta é a nossa luta. O secularismo é
parte integrante desta cultural.
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Embora o texto esteja na sua esmagadora maioria correcto ao afirmar que
o relativismo moral é um conceito racista, ele está errado ao afirmar
que o islão político é produto das acções do Ocidente.