MITOS ISLÂMICOS

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

As vítimas Cristãs esquecidas de Aleppo

Andando pelas vizinhanças predominantemente Cristãs da cidade de Aleppo - Azizieh, Siryan, Sulaimaniyah e Midan - ainda se podem ver os cartazes dos dois bispos, raptados pelos militantes islâmicos no ano passado, pendurados sobre as janelas das lojas, sobre as paredes e até nos carros. As pessoas por aqui não os esqueceram visto que o evento ainda se encontra bem fresco e bem doloroso tal como se ele tivesse ocorrido ontem. O rapto dos bispos foi um evento simbólico, indicado o colapso generalizado das relações comunitárias inter-religiosas num países sob o reino duma guerra civil sectária, e marcou o fim duma longa era de paz e de segurança relativas para os Cristãos da Síria.

As próprias ruas exibem um tipo de "normalidade" enganadora e surreal, o tipo de "normalidade" onde edifícios esburacados, ruas com buracos, carros destruídos, e até calçadas manchadas de sangue são visões normais e esperadas à medida que as pessoas seguem a sua vida normal sem olhar duas vezes. Esta é a vida actual, e esta é a realidade aqui. Como as coisas eram antes da guerra é irrelevante, as memórias daqueles lindos e distantes dias não importam e nem são mais levados em consideração.

O medo é palpável na cidade; ele paira de modo pesado no ar e um pouco por todo os sítios onde se vai, semelhante a um potente e enjoativo perfume. Ainda é possivel ver o medo no olhar das pessoas, nas linhas profundas das suas faces; pode-se ouvir o medo através da forma como andam e nas suas conversas; só se fala nisso.

Mas um novo tipo de medo permeia esta antiga e profundamente enraizada comunidade. O genocídio e a limpeza étnica são ameaças reais que assombram a consciência colectiva dos Cristãos da Síria. O destino terrível que se abateu sobre os seus co-religionistas do outro lado da fronteira em Mosul fez com que esta realidade fosse assimilada duma forma brutal e assustadora. A genocida e niilista seita da morte conhecida como "Estado Islâmico" está determinada em destruir tudo o que não seja igual a ela, e tem estado envolvida numa violência imparável que deixou para trás um trilho de corpos decapitados e valas comuns, normalmente corpos de minorias étnicas e religiosas.

Os militantes não escondem as suas campanhas genocidas compostas por matanças em massa e violência medieval; pelo contrário, para além de se divertirem com elas, eles celebram-nas abertamente e com alegria. Para eles, a violência não é um meio para um fim, mas o próprio fim.

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Yousef é um lojista na vizinhança predominantemente Cristã de Sulaimaniyah, que testemunhou bombardeamentos constantes por parte dos rebeldes desde que a guerra civil dividiu o país em Julho de 2012. O seu irmão serve no exército Sírio em Damasco. Durante uma conversa, ele falou-me das questões e ansiedades predominantes que estão a atravessar a sua comunidade:

Porque é que os muçulmanos moderados não fazem mais para parar os extremistas que se encontram no meio deles? Será que eles concordam com a sua ideologia e com o seu extremismo? Vimos centenas de milhares de protestantes nas ruas manifestando-se contra os abusos do regime, portanto, porque é que não estamos a ver milhares de protestantes contra o que o EIIL tem vindo a fazer? Pior, temos visto actualmente muitas pessoas e grupos rebeldes a juntarem-se a eles. Existem muitas centenas destes grupos rebeldes, mas eles são todos iguais, todos eles têm esta ideologia extremista contra nós. A minha conclusão é que estes grupos e o EIIL têm o apoio das forças anti-governamentais para o que estão a fazer.

Os Cristãos da Síria tentaram, no seu todo, ficar de parte desta furiosa guerra civil mas frequentemente vêem-se envolvidos na confusão e nestes eventos sangrentos. Em mais do que uma ocasião, os Cristãos tornaram-se no ponto central da acção, tal como em Maaloula, Yabrud e Kassab, bem como em raptos altamente publicitados de freiras e sacerdotes.

Mas as vozes começam a questionar se eles devem continuar na sua neutralidade durante este conflito, que eles olham como um que se modificou para se tornar num conflito que os tem como alvo, e que está a ameaçar a sua comunidade com a aniquilação. Muitos acreditam que pegar em armas, pelo menos para auto-defesa, é uma escolha sábia, mas outros sentem que isto iria irritar e inflamar ainda mais os seus inimigos, fazendo com que eles venham a levar a cabo actos criminosos ainda mais horrendos.

Tal como muitos habitantes do Oeste de Aleppo, também alguns Cristãos tiveram que fugir à violência que rasgou a sua cidade; muitos nunca mais irão regressar. Mas ao contrário do êxodo em massa dos Cristãos em outros lugares, de modo geral, os Cristãos de Aleppo ficaram na sua cidade, sugerindo que a comunidade Cristã de Aleppo permanece ainda conectada com a sua casa ancestral, e são uma parte integral do diverso mosaico social, étnico e cultural da cidade.

Mas o medo duma limpeza étnica tal como aquela que está a ser observada no Iraque ainda causa medo. George, mecânico e dono duma garagem em Sulaimaniyah, afirmou:

Os Cristãos de Aleppo não irão ficar se o regime perder o controle da cidade. A sua estadia aqui será finalizada. Talvez para sempre. Os jihadis takfiri assegurar-se-ão disso. O seu plano é o de limpar a nação de pessoas não-sunitas. Por enquanto, eles estão a usar tácticas de medo e propaganda para intimidar as pessoas de modo a que elas abandonem a cidade antes deles chegarem; é assim tão fácil. É por isso que eles levam a cabo esses crimes macabros perante as câmaras, para vencer sem que tenham que disparar uma única bala. E quando eles invadem novas áreas, eles queimam as nossas igrejas e confiscam as nossas casas e os nossos negócios. Eles querem apagar todos os traços da nossa presença nas nossas terras. Que tipo de mensagem estão eles a emitir? Porque é que alguém haveria de querer juntar-se a tua religião sob ameaça?

George acusa o Ocidente de ser cúmplice da remoção de Cristãos do Médio Oriente:

Porque é que os Estados Unidos não levaram a cabo acções militares quando o EIIL perseguiu os Cristãos em Raqqa e Mosul? Porque é que só agora, quando são os Yazidis a serem atacados, é que eles levaram a cabo uma acção militar? Existe um plano de remoção de todos os Cristãos do Médio Oriente. É uma coisa de doidos. O Ocidente tem os mesmos planos que os terroristas têm para nós! E isto é claro: actualmente a França está a aceitar os refugiados Cristãos provenientes do Iraque, mas no Mali, a França enviou um exército para derrotar os terroristas. Será que eles são terroristas no Iraque e no Mali, mas revolucionários na Síria?

Muitos do argumentos que Yousef e George abordaram foram ecoados por toda a comunidade Cristã em Aleppo, indicando a sua partilhada situação e ansiedade, independentemente da sua afiliação política. Nem todos os Cristão de Aleppo apoiam o regime; de facto, uma larga percentagem deles não apoia, mas igualmente significante é que não se encontrará Cristão algum que dê o seu apoio aos rebeldes.

O bombardeamento recente e repetido da Igreja Católica Siríaca, um edifício enorme e icónico bem no centro da antiga comunidade Cristã de Azizeh, é visto por muitos como uma mensagem clara por parte dos rebeldes, revelando as suas verdadeiras intenções em relação à comunidade Cristã. Yousef afirma:

Já não há mais necessidade de manter a pretensão de libertação e liberdade. Eles [os rebeldes] foram bem sucedidos em vender essa imagem para o mundo exterior ao mesmo tempo que levavam a cabo as suas verdadeiras intenções na Síria em plena luz do dia.

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