MITOS ISLÂMICOS

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Islamite aguda

Maria João Marques 

Queixem-se à vontade do aproveitamento pela extrema-direita destas agressões sexuais, mas ela só explora a receita explosiva que a esquerda multiculturalista cozinhou com irresponsabilidade criminosa.

Às vezes há pessoas que me perguntam porque embirro tanto com o islão. Algumas vezes pessoas que tenho por sensatas e cuja opinião e postura prezo.

Tem uma resposta fácil. A resposta curta é que o islão também não gosta de mim. E por mim digo uma mulher ocidental, independente, livre, que não pede nem nunca pediu permissão a um homem (fora os tempos em que os meus pais mandavam em mim) para viver a sua vida, que se sustenta a si e aos seus filhos, que se veste de forma mais ou menos sexy conforme lhe apetece sem dar cavaco a totalitários islâmicos, e que de forma nenhuma aceita a moral familiar ou sexual que os expansionistas islâmicos impõem sempre que os deixam.

A resposta comprida são exemplos da hostilidade do islão para com mulheres como eu. Porque quando os indefectíveis multiculturais-ai-jesus-que-vem-aí-a-xenofobia pretendem dar lições de tolerância aos supostamente tacanhos e provincianos xenófobos, confesso que só consigo ver ignorância, falta de mundo e paroquialismo dos ditos tolerantes. Concluo sempre que nunca contactaram com o islão fora dos jornais militantes ou dos circuitos turísticos onde os islâmicos fazem o seu papel para vender e receber gorjetas, incluindo simpatia, respeito aparente pelas mulheres e a eterna graçola ‘quantos camelos quer por ela?’.

Na primeira pessoa só tenho experiências inócuas, nada que se compare com quem viveu em países muçulmanos com os reiterados assédios. Por exemplo uma tarde em Argel a adolescente Maria João, vestida com uma camisa e uns jeans largos, a ser olhada por todos os homens com que me cruzei de uma forma que misturava nojo com uma voracidade sexual agressiva que ainda não esqueci, só porque era novinha e andava na rua (acompanhada dos meus pais, note-se, com a minha mãe aflita a agarrar-me a roupa; ainda hoje, passados vinte e cinco anos, se incomoda com esta lembrança). (E a propósito, esta forma que os muçulmanos têm de olhar para as mulheres como gado, mesmo quando não dizem nada, é muito mais agressiva do que qualquer piropo, ordinários incluídos, que tenha ouvido por cá.)

Já tive um grupo de muçulmanos, no Forte Vermelho de Delhi, a cuspirem no chão à minha frente, olhando para mim, vociferando zangados sabe-se lá o quê, porque eu estava de mão dada (mão dada!) em público com quem me acompanhava. Os pequenos actos de má educação deliberados – empurrões para passar numa porta ou numa fila, comentários garatujados com ar agressivo em língua incompreensível, um largo etc. – que recebi de muçulmanos são incontáveis. Miucha Baldinho contava-me no facebook que o Egipto ‘é um mundo de homens, mesmo, só há homens na rua, das pouquíssimas mulheres que andam na rua, a maioria anda velada ou quase e uma minúscula minoria descoberta (são as modernas)’.

Claro que nem todos os muçulmanos são energúmenos. Uma vez em Cantão ao entrar (sozinha) para o elevador do hotel fui empurrada por um grupo de árabes, enquanto me chamavam o que deviam ser todas as variações de ‘prostituta’ na sua língua. O senhor mais velho do grupo achou este comportamento um ultraje, começou aos gritos com os seus companheiros, fê-los saírem todos do elevador, travou a porta para eu entrar e só depois deixou os exaltados regressarem ao elevador.

Mas só uma minoria de muçulmanos se sabe portar de uma forma que na Europa consideramos adequada perante uma mulher. E só não vislumbra isto quem se esforça por deturpar a realidade ou não conhece o mundo.

A imigração muçulmana é uma ameaça evidente para aquilo que devia ser pilar europeu fundamental: a igualdade entre os sexos, a liberdade feminina e o escrupuloso respeito pelos direitos humanos das mulheres. Pela minha parte, ando há anos qual Santo Amaro a advertir para os perigos. Como era mais que esperado, o recebimento de refugiados – no meio de histeria e de lirismo de gente interessada sobretudo em provar bom coração – sem qualquer cautela potenciou calamidades. Só agora se viu a necessidade de informar refugiados das regras de conduta europeias entre os sexos ou alargar possibilidade de deportação de criminosos.

E assim chegámos à noite de passagem de ano em Colónia, e em Helsínquia e noutras cidades. Desde há vários anos que entre o sacrossanto multiculturalismo e os esfarrapados direitos das mulheres, se coroou o primeiro e se desbarataram os segundos. A forma como se abafou vários casos de abusos sexuais por muçulmanos e as respostas deficientes da polícia – no norte de Inglaterra, no verão de 2014 e 2015 na Suécia, e agora também na passagem de ano – tiveram mensagem muito clara: os imigrantes e refugiados que façam o que quiserem às mulheres, que acima de tudo não queremos que nos chamem xenófobos.

Que feministas de esquerda tenham feito parte dos que estiveram silenciosos perante Colónia (e o resto) fica certamente para a história negra do século XXI. A desculpa oferecida de não quererem ser instrumentalizadas para ataque aos refugiados mostra às escâncaras que a denúncia de violência sexual contra mulheres veio em segundo lugar (eu denuncio venha de onde vier). 

Há quem tenha até, fingindo sensatez, inquirido se os refugiados queriam roubar (o que interessa?!) mas, pobres rapazes comandados pelas hormonas e pela confusão cultural, entusiasmaram-se. Pelas redes sociais, mulheres que eu só posso desconfiar estarem sob influência de substâncias estranhas pareciam comparar, para pior, a relação dos homens europeus com as mulheres (incluindo o entediante piropo, que teimam em equiparar a violência sexual; e desde quando termos agressores sexuais europeus nos obriga a receber agressores estrangeiros?).

 Chegou-se mesmo a negar às vítimas a capacidade de contarem a sua história de forma verdadeira (no caso, a origem dos agressores), sendo que eu não vejo como uma feminista pode não respeitar a verdade que uma vítima de violência sexual transmite. De resto não é de agora este estranho enlevo das feministas de esquerda por uma cultura que renega tudo aquilo por que supostamente se batem. Julie Bindel (ela própria feminista e de esquerda) dias antes das notícias de Colónia dissertava sobre o assunto na Standpoint.

Pelo que podem queixar-se à vontade do aproveitamento que a extrema-direita faz destas agressões sexuais. A extrema-direita só está a aproveitar a receita explosiva que a esquerda multiculturalista com irresponsabilidade criminosa cozinhou. E pagaram as mulheres.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

União árabe contra o Estado Islâmico é “temporária”

Por

A morte do piloto jordano queimado vivo pelo EI chocou o mundo árabe que em coro condenou o grupo. Uma união rara que provavelmente não se traduzirá numa tomada de posição, defendem os especialistas.

Um dia depois da morte do piloto jordano Moath al-Kasasbeh, queimado vivo pelo Estado Islâmico na passada terça-feira, o mundo árabe, mas também a Turquia e o Irão falaram a uma só voz. Numa região dividida por interesses e crenças variadas, a condenação unânime do EI foi praticamente inédita e gerou uma questão: irão estes países unir esforços para derrubar os jiadistas?

Os especialistas ouvidos pelo Observador são igualmente unânimes: a união na zona é temporária. “Depois desta condenação, os interesses divergem. Voltamos ao velho tabuleiro do Médio Oriente – Irão, Jordânia, Qatar, Arábia Saudita… não estão todos do mesmo lado”, diz Paulo Gorjão, diretor do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS), que não vê como provável que esta reação emocional e imediata se traduza numa mudança substancial da estratégia contra o Estado Islâmico.

Maria do Céu Pinto, professora de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade do Minho, defende que “no plano da solidariedade do mundo árabe, esta é mais aparente do que real”, uma vez que no Médio Oriente há “diferentes interesses e vulnerabilidades relativamente ao EI”. Segundo a docente universitária, “embora os países árabes [mais a Turquia e o Irão] se coloquem contra o EI, muitos deles continuam a apoiar o grupo radical porque este se insere num jogo mais amplo que é a luta entre xiitas e sunitas”.

Os militantes do Estado Islâmico têm como objetivo criar, como o próprio nome indica, um estado islâmico sunita, através do estabelecimento e da expansão de um autoproclamado califado. O surgimento do grupo tem origem na resistência sunita ao regime xiita do antigo primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki. A guerra civil na Síria, que se arrasta desde 2011, opondo os rebeldes sunitas ao presidente Bashar al-Assad, pertencente à minoria alauíta, um grupo étnico-religioso do Islão xiita, fortaleceu o EI, que conseguiu conquistar parcelas do território e ter acesso a armamento.

No caso concreto da luta na Síria, o jogo tem, de um lado, Assad, apoiado pelo Irão xiita, e do outro, os países sunitas do Golfo Pérsico – como a Arábia Saudita – que querem derrubar o regime sírio. Esta é uma das razões pela qual o Irão, que teme a ameaça que o EI representa para os xiitas, não fez parte da coligação internacional contra o grupo onde se encontra um dos seus maiores inimigos na região, – a Arábia Saudita – levando a cabo ataques isolados contra os jiadistas. E é de acordo com este cenário que deve ser entendida a explicação de Maria do Céu Pinto ao Observador: “O Estado Islâmico é uma criatura odiosa que serve o interesse de alguns países”.

“Esta é a nossa guerra”

Antes da morte de Moath al-Kasasbeh, a opinião pública jordana estava muito dividida quanto à participação do país na coligação liderada pelos EUA. Como lembra a revista Foreign Affairs, nas redes sociais, um dos tópicos mais populares procurava mobilizar a oposição ao conflito, agregando a discussão sob a hashtag #ThisIsNotOurWar (esta não é a nossa guerra). A Irmandade Muçulmana jordana condenou a aliança, considerando-a uma violação da Constituição do país, bem como uma “campanha contra o Islão”.

Segundo a mesma revista, a maioria dos jordanos viu no Estado Islâmico uma resposta a Assad, cujo regime matou mais de 200 mil pessoas, na maior parte sunitas. Em setembro, uma sondagem indicava que 62% dos jordanos consideravam o EI uma organização terrorista.

Por outro lado, entre os jordanos seculares houve quem temesse uma retaliação do grupo devido ao envolvimento da Jordânia com os EUA. Na verdade, ao incendiar o piloto Moath al-Kasasbeh, o Estado Islâmico quis enviar uma mensagem à Jordânia: queimámos um dos vossos tal como vocês queimam os nossos com o fogo dos vossos aviões. O grupo radical esperava assim dissuadir o país de continuar os ataques aéreos na Síria. Mas a reação da sociedade jordana foi a oposta.

Depois do anúncio da morte do piloto Moath al-Kasasbeh, a Jordânia anunciou a retaliação e executou dois terroristas presos que tinham ligações ao Estado Islâmico. O país uniu-se em manifestações de apoio ao rei Abdullah II, que declarou guerra ao grupo e prometeu vingança, lançando novos ataques contra os jiadistas. Homens e mulheres de véu foram filmados a escrever versos do Corão e slogans contra o EI nas bombas que poucas horas depois cairiam na Síria e também no Iraque. Na sexta-feira, milhares desfilaram nas ruas de Amã. À frente da multidão seguia a rainha Rania, que sublinhou: “Esta guerra é da Jordânia. É uma guerra de todos os muçulmanos. Não conseguimos vencer esta guerra sozinhos, mas é a nossa guerra.”

Uma guerra de todos os muçulmanos?

Na Síria, o Governo de Assad condenou o ato do Estado Islâmico. No Egipto, tanto o Governo como a Irmandade Muçulmana falaram contra a “barbárie” de queimar um homem até à morte. O Irão, que não tem uma relação de amizade com a Jordânia, chamou ao homicídio um “desumano e não islâmico”. O presidente turco Tayip Erdogan, que tem sido criticado pela sua inação, disse que a morte do piloto foi “uma selvajaria”. O movimento Hezzbollah, aliado do Governo sírio, disse que este foi o ato “mais macabro” já cometido pelo Estado Islâmico”

Para explicar este sentimento de solidariedade, alguns comentadores lembraram que esta foi a primeira vez que o Estado Islâmico assassinou um refém muçulmano. A forma escolhida para o fazer aumentou a indignação. É que queimar uma pessoa até à morte é proibido no Islão, disseram alguns. Só deus pode aplicar esse castigo, ao destinar alguém ao inferno.

Maria do Céu Pinto pensa que, apesar desta solidariedade, só consegue imaginar um cenário em que a guerra contra o Estado Islâmico se tornaria uma guerra de todos os muçulmanos. “A crueldade em si não vai levar a grandes mudanças na política da região. Se um país árabe próximo da Síria ou do Iraque estivesse prestes a cair nas mãos do Estado Islâmico – como a Jordânia – isso mudaria a atitude da Arábia Saudita, por exemplo”, diz.

- http://goo.gl/RbyWJs
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